
A dramaturgia brasileira perdeu uma de suas maiores referências. A atriz Laura Cardoso morreu aos 98 anos, na noite de segunda-feira (17), em São Paulo. A informação foi comunicada pela família na madrugada desta terça-feira (18), por meio das redes sociais oficiais da artista.
Com 82 anos de carreira, Laura Cardoso não foi apenas uma atriz de televisão. Sua trajetória se confunde com a própria história da dramaturgia brasileira. Ela começou no rádio ainda adolescente, atravessou os primeiros anos da televisão no país, passou pelo teatro, cinema e dublagem e permaneceu em atividade por mais de oito décadas.
Laura nasceu como Laurinda de Jesus Cardoso, em 13 de setembro de 1927, no bairro do Bixiga, em São Paulo. Filha de imigrantes portugueses, desde criança demonstrava interesse pela representação. Segundo registros do Memória Globo, ela brincava de teatro com outras crianças do bairro e gostava de ler e representar para a família e na escola.
Do rádio para uma televisão que ainda estava nascendo
A carreira profissional começou cedo. Em 1942, aos 15 anos, Laura ingressou no rádio, participando de radionovelas na Rádio Cosmos. Na época, a televisão ainda nem fazia parte da rotina dos brasileiros.
A primeira transmissão oficial de televisão no Brasil havia acontecido apenas em 1950, com a inauguração da TV Tupi. Dois anos depois, Laura já estava diante das câmeras.
Ela estreou na televisão na TV Tupi, participando de teleteatros e do programa Tribunal do Coração, em 1952. Era uma época em que a televisão brasileira ainda estava dando seus primeiros passos e os programas eram produzidos ao vivo, com uma estrutura completamente diferente da televisão que o público conhece atualmente.
A atriz, portanto, pertence à primeira geração de artistas que ajudaram a construir a televisão brasileira.
Uma carreira que atravessou gerações
Ao longo de mais de oito décadas, Laura Cardoso acumulou mais de 100 trabalhos e participou de mais de 60 novelas, além de dezenas de produções de teatro, cinema, séries, programas de televisão e trabalhos de dublagem
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Sua trajetória passou por algumas das principais emissoras brasileiras, entre elas TV Tupi, TV Excelsior, Record, TV Cultura, Bandeirantes e Globo.
Na Globo, a estreia aconteceu somente em 1981, na novela Brilhante. Ou seja: quando chegou à emissora, Laura Cardoso já carregava quase quatro décadas de experiência artística.
A partir daí, construiu uma extensa história na emissora, participando de produções que marcaram diferentes gerações de telespectadores.
Personagens que ficaram na memória
Entre seus trabalhos mais lembrados estão personagens de novelas como Mulheres de Areia (1993), em que interpretou Isaura, e A Viagem (1994), na pele de Dona Guiomar.
Também esteve em produções como Pão-Pão, Beijo-Beijo, Livre para Voar, Salsa e Merengue, Chocolate com Pimenta, Como uma Onda, Caminho das Índias, Império, Boogie Oogie, Sol Nascente e tantas outras.
Em Caminho das Índias, interpretou Laksmi, personagem que ganhou destaque na trama. Em A Dona do Pedaço, de 2019, fez um de seus últimos trabalhos em novelas, encerrando uma participação que marcou mais uma etapa de sua longa trajetória na televisão.
Cinema, teatro e dublagem
A carreira de Laura Cardoso não se limitou às novelas.
No cinema, participou de mais de 20 filmes, construindo também uma trajetória respeitada na sétima arte. Entre os trabalhos estão Rei Pelé, Tiradentes, o Mártir da Independência, Quincas Borba, Copacabana, O Outro Lado da Rua, Fica Comigo Esta Noite, Primo Basílio, Muita Calma Nessa Hora e Muita Calma Nessa Hora 2.
A atriz também se destacou no teatro e recebeu importantes reconhecimentos por sua atuação nos palcos e no cinema.
Outro capítulo menos lembrado de sua carreira foi a dublagem. Laura emprestou sua voz a personagens e produções que também fizeram parte da memória de diferentes gerações, incluindo Betty, de Os Flintstones.
Reconhecimento e prêmios
A importância de Laura Cardoso para a cultura brasileira foi reconhecida ao longo de sua carreira por diferentes instituições.
Entre as homenagens recebidas estão o Troféu Mário Lago, pelo conjunto da obra, o Troféu APCA, o Prêmio Shell de Teatro e a Ordem do Mérito Cultural, uma das principais honrarias concedidas pelo governo brasileiro a personalidades que contribuíram para a cultura do país.
Em 2002, recebeu o Troféu Mário Lago pelo conjunto de sua trajetória na televisão. Em 2006, foi condecorada com a Ordem do Mérito Cultural.
Uma artista que não queria parar
Mesmo depois dos 90 anos, Laura Cardoso continuou ligada à profissão.
Seu último trabalho em uma novela foi A Dona do Pedaço, em 2019. Já no cinema, participou do curta-metragem Dona Rosinha, lançado em 2025, quando tinha 97 anos. Na produção, interpretou uma idosa abandonada pela filha.
No mesmo ano, a atriz recebeu uma homenagem nos Estúdios Globo, onde ganhou uma estrela na calçada da fama da emissora. Também participou de uma mensagem de fim de ano da Globo.
Uma vida inteira dedicada à arte
Laura Cardoso viveu praticamente toda a evolução da dramaturgia brasileira.
Ela começou quando o rádio era um dos principais meios de entretenimento do país. Poucos anos depois, participou dos primeiros capítulos da história da televisão. Trabalhou em produções ao vivo, acompanhou a chegada da televisão em cores, a consolidação das telenovelas, a expansão do cinema brasileiro e as transformações tecnológicas que mudaram a maneira de produzir e consumir televisão.
Foram 82 anos de carreira, mais de 100 trabalhos, mais de 60 novelas e uma trajetória que atravessou gerações.
Sua história também é a história de uma artista que conseguiu permanecer relevante em diferentes épocas, trabalhando com diferentes gerações de atores, autores e diretores.
Morte
Laura Cardoso morreu aos 98 anos, em São Paulo. Segundo informações divulgadas pela família e reproduzidas por veículos de imprensa, a morte ocorreu de causas naturais.
O velório ocorre nesta terça-feira (18), em São Paulo, em cerimônia reservada à família.
Laura Cardoso deixa duas filhas, Fátima e Fernanda, além de netos, e, principalmente, um legado que ultrapassa a televisão.
Para milhões de brasileiros, ela permanecerá associada a personagens que fizeram parte de suas histórias. Para a dramaturgia nacional, fica o trabalho de uma atriz que começou praticamente junto com a própria televisão brasileira e permaneceu em cena por mais de oito décadas.
Laura Cardoso não apenas fez parte da história da televisão brasileira. Ela ajudou a construir essa história.